Quatro meninos em cena. O mais velho é palhaço-mímico. A celebridade na ribalta não tem mais que 19 anos. É brilhante a ponto de ocupar inteiramente o palco com uma máquina fotográfica e três crianças. É formidável a ponto de ofuscar os espectadores ávidos pela confissão pública de que sua própria solidão não é apenas tolerável, mas, com alguma habilidade e sorte, pode dar bons frutos. A tarefa dele é mostrar que a instabilidade deve ser apreciada e experimentada no ato. Vivencia laços carnavalescos com a platéia. É sedutor como o jogo de luzes que faz o espetáculo: ambos são necessários para que os indivíduos sejam postos à vista do público.
O palhaço artista fala com o corpo. Faz acontecer o inconcebível: o pequeno milagre de evocar a experiência geral. E todos riem a alegria de fazer parte sem o desconforto do compromisso. A união é sentida e vivida como se fosse real, mas não é contaminada pela dureza, inelasticidade e imunidade ao desejo individual, atributo da liquidez urbana contemporânea, efêmera, extraterritorial. O menino palhaço é ídolo feito sob encomenda para uma vida fatiada em episódios. Segue o padrão de impacto visual máximo e obsolescência instantânea. Não dá para levar para casa e consumir na rotina diária.
O palhaço-mímico é a alma da comunidade-cabide do circo. Nela penduramos nossas angústias na entrada por três reais,o preço da pipoca. E ainda podemos registrar a efeméride, nossa identidade antes e depois do retrato. É a catarse coletiva. A libertação do labirinto. É Dionísio coabitando a psique, tentando ser substantivo na modernidade diluída. É a alocação do gozo em separado. É a experimentação institucional do compartilhamento fraterno, uma espécie de seguro comunitário contra erros e desventuras, riscos inseparáveis da vida individual. Enquanto anônimos nas cadeiras coletivas vamos garantindo o direito à diferença reconhecida e a continuidade de ser diferente sem temor a reprimendas, sem ter que escavar trincheiras, sem a entrada de intrusos, sem a saída dos de dentro antes que as cortinas se fechem.
O circo é, há cinco mil anos, uma comunidade que resiste. Estende sua lona circular pelas cidades enquadrando formas narrativas antigas. A força dos números a engolir a dramaturgia. Os gestos coreografados dos acrobatas, trapezistas, saltimbancos, contorcionistas, bailarinos exibem sem medo a falsa dignidade que incorpora o espectador ao espetáculo. O público vira celebridade, se projeta na segurança do artista, longe das dores do cansaço, da repetição, da doença e da fome.
Até 1977 o saber do circo só era transmitido nos círculos familiares. Por intermédio de um palhaço pantomímico a identidade comunitária mudou. Abelardo Pinto, o Piolim, criou a primeira escola de circo em São Paulo. Com a criação das escolas, a iniciação dos novos foi apontando duas alternativas de difícil escolha: assimilar ou perecer. A primeira significava a aniquilação da diferença. A segunda, a aniquilação do diferente. Para continuar a levar a massa ao circo, sem animais desde 2003, depois de 115 anos de domesticação, era preciso investir fortemente nos números. E artistas estrangeiros foram despojados de alteridade. Acabaram dissolvidos de sua idiossincrasia no composto uniforme da identidade circense mundial. No Canadá e no Brasil, porém, não menos vibrante.
É o que pensam os russos Ludmila e Eugênio Smirnov, mágicos, no circo brasileiro há 14 anos que também já trabalharam no Canadá. Eles se apresentam com os três filhos, dois deles também russos, Natasha, 23 anos, Serguei, 19. Os quatro, a pequena Kátia com sete anos e outros cinco rapazes e moças da Fundação Cultural Beto Carrero World, a segunda escola de circo do país, mantêm a atenção do público por quase uma hora.
Eugênio acredita que o que ensina aos filhos também é de acesso a todos os outros 250 alunos uma vez que ensaiam as apresentações da noite durante as aulas. Eugênio aprendeu a fazer mágica no Circo de Moscou em pleno regime comunista. Era funcionário do governo, tinha carteira de artista que daria direito a uma velhice confortável. Ludmila, de grandes olhos verdes, muito emotiva, falando sempre de braços dados com um dos filhos, era integrante de uma família de trapezistas. Ela e Eugênio se conheceram no circo, se apaixonaram, casaram e com o início da democratização da antiga Rússia em plena era Yeltsin, 1993, tiveram que integrar companhias de outros países para continuar a ganhar a vida com a profissão.
- Ainda dá para surpreender com números que têm séculos! - garante Eugênio. – Depende da técnica do artista e da sua mais profunda capacidade de interagir com a platéia.
Ludmila, mais de quarenta anos, aparência de menos de trinta, atribui o sucesso dos antigos números à espontaneidade dos latinos:
- Ninguém tem vergonha de participar, de dizer que precisa ser surpreendido, de rir com o artista ou com o riso do que está ao lado. Isso compensa a falta de reconhecimento financeiro!
Dedé Santana, 40 anos de carreira como humorista, sobrinho de Anquito, um dos maiores comediantes de circo da história nacional que teve Grande Otelo, Oscarito e o palhaço Piolim concorda:
- O circo tenta se modernizar com recursos de cena computadorizados, mas a platéia aplaude entusiasmada números simples como os que o Piolim fazia imitando Charles Chaplin, no início do século XIX. Então, o Comando Maluco é um pouco isso; rir das coisas simples como a ingenuidade do Bananinha que tem medo do General.
A disciplina quase militar, o uso de uniformes, o rufar de tambores, o palhaço e a paródia do recruta já ensaiada nas primeiras tentativas da práxis circense moderna por volta de 1770. No entanto, 237 anos passados, em Joinville, a platéia de uma quinta-feira na maioria donas-de-casa, aposentados e até um policial militar, ratifica a receita secular:
- Baixa o estresse; a gente esquece de filho, de marido, das contas chegando, tudo! – afirma Alaírdes da Maia, 38 anos, dona-de-casa.
- Venho para rir; rio muito e em casa, depois, a conversa rola solta! – Confessa Aldemar Castro, 44 anos, policial militar.
- Quando era moço, gostava de ver os números para poder imitar quando chegava em casa. Queria fazer igual! – revela, descontraído, Joselino Ramos, 66 anos, aposentado.
Na ‘comunidade estética’ de Kant, “o vínculo procurado não deve ser vinculante para seus fundadores”. Ou metaforicamente, para Weber, “o que é procurado é um manto diáfano, não uma jaula de ferro” de onde todos podem sair quando bem entenderem sem compromisso de voltar. Não há laços, apenas temporaneidade, necessidade.
A necessidade da comunidade estética, cabide para a crise da identidade dos sujeitos cosmopolitas, alimenta a indústria do entretenimento. Tal qual o vagabundo de chapéu-coco, bengala, bigodinho e sapatos enormes, ícone vinculante do circo ao cinema no início do século XIX chamado Carlitos. No entanto, é discutível se essas ‘comunidades-cabide’, como insiste Zygmunt Bauman, “ofereçam o que se espera delas, na medida em que uma vez desfeita a comunidade original, não pode ser recomposta. Se porventura ressurgir das cinzas de si mesma como a fênix, não será de forma preservada na memória, mas invocada por uma imaginação cotidianamente assolada pela insegurança perpétua”.
É certo que apesar do uso excessivo da palavra ‘comunidade’, homens e mulheres procuram por grupos a que poderiam pertencer num mundo em que tudo se move e se desloca. Mais precisamente ainda, “quando a comunidade entra em colapso, a identidade é reinventada”, afirmam vozes dissonantes. Pois, que seja assim, mas que tenha cheiro de pipoca, maçã caramelada e serragem do picadeiro...
Texto escrito em julho de 2007 para aula de Redação Jornalística VI do Prof. Jacques Mick no curso de Jornalismo do IELUSC
quarta-feira, 29 de julho de 2009
quinta-feira, 23 de julho de 2009
O paradigma do apreender
Nasci na década em que o homem pousava na Lua. Mal sabia eu que o “pequeno passo para a humanidade” representava rupturas gigantescas de verdades incontestáveis para o mundo e para a proximidade local, apesar de minha avó austríaca duvidar daqueles três homens em solo lunar. A Ciência descobria pluralidades. Vovó duvidava.
A matemática e a experimentação passaram a quantificar os fenômenos e não demorou a surgirem os relógios digitais, a calculadora portátil, o telefone sem fio, as roupas sintéticas, o forno de microondas... Quanta transformação para a cabeça da “Baptcha Mainka”, minha avó! Mesmo que a maior invenção do século, a televisão, insistisse em mostrar imagens da Apollo 11, Baptcha morreu incrédula. A idéia de mundo dela não comportava os novos paradigmas.
A filha dela, minha mãe, também tinha dificuldades em entender porque o homem precisava buscar no universo, soluções para problemas do dia-a-dia. Eu, cá pra nós, achava tudo muito distante. Não via necessidade em nada daquelas descobertas. O mundo podia ser explicado da perspectiva da minha “Bike Ceci” na companhia da boneca “Suzy” e do cachorro Duque num lindo dia de sol. Era só o que eu precisava para ter um dia cheio de aventura e risadas. Era o meu mundo. Qualquer coisa, além disso, passava sem importância.
Mas, a escola foi colocando necessidades naquele mundo fixo e tive sede de aprender muitas leituras. Não consegui parar de aprender. As respostas nunca calaram minhas perguntas e, quando chegou a Internet, vi que podia ir tão longe quanto a Lua.
É que, segundo Thomas Kuhn, em cada período, temos uma perspectiva científica própria e organizada de ver a realidade: um paradigma. Mas a maneira como nos relacionamos com a ciência ou a vontade de aprender por ela vão definindo quanto e como vivemos. Uma vez que “progredimos não porque acumulamos conhecimentos, mas porque passamos de um paradigma a outro”, (KUHN, 1922). Assim, os que partilham de um determinado paradigma aceitam a descrição de mundo que é oferecida sem criticar os fundamentos íntimos da descrição.
No entanto hoje, creio sim, que saber sobre os olhares paradigmáticos da ciência na pós-modernidade (BAUMANN, 2004), nos permite assumir uns, refutar outros, transitar por eles ou misturá-los quando necessário, para entender o sentido e a dinâmica da visão de mundo que nos é ofertada.
Eis o grande desafio da educação: construir conhecedores de diferentes paradigmas que tenham condições de oferecer múltiplas interpretações sobre qualquer campo do conhecimento. Penso que a interdisciplinaridade (MORIN, 2005) é o caminho para os construtores do novo paradigma do aprender a apreender.
A matemática e a experimentação passaram a quantificar os fenômenos e não demorou a surgirem os relógios digitais, a calculadora portátil, o telefone sem fio, as roupas sintéticas, o forno de microondas... Quanta transformação para a cabeça da “Baptcha Mainka”, minha avó! Mesmo que a maior invenção do século, a televisão, insistisse em mostrar imagens da Apollo 11, Baptcha morreu incrédula. A idéia de mundo dela não comportava os novos paradigmas.
A filha dela, minha mãe, também tinha dificuldades em entender porque o homem precisava buscar no universo, soluções para problemas do dia-a-dia. Eu, cá pra nós, achava tudo muito distante. Não via necessidade em nada daquelas descobertas. O mundo podia ser explicado da perspectiva da minha “Bike Ceci” na companhia da boneca “Suzy” e do cachorro Duque num lindo dia de sol. Era só o que eu precisava para ter um dia cheio de aventura e risadas. Era o meu mundo. Qualquer coisa, além disso, passava sem importância.
Mas, a escola foi colocando necessidades naquele mundo fixo e tive sede de aprender muitas leituras. Não consegui parar de aprender. As respostas nunca calaram minhas perguntas e, quando chegou a Internet, vi que podia ir tão longe quanto a Lua.
É que, segundo Thomas Kuhn, em cada período, temos uma perspectiva científica própria e organizada de ver a realidade: um paradigma. Mas a maneira como nos relacionamos com a ciência ou a vontade de aprender por ela vão definindo quanto e como vivemos. Uma vez que “progredimos não porque acumulamos conhecimentos, mas porque passamos de um paradigma a outro”, (KUHN, 1922). Assim, os que partilham de um determinado paradigma aceitam a descrição de mundo que é oferecida sem criticar os fundamentos íntimos da descrição.
No entanto hoje, creio sim, que saber sobre os olhares paradigmáticos da ciência na pós-modernidade (BAUMANN, 2004), nos permite assumir uns, refutar outros, transitar por eles ou misturá-los quando necessário, para entender o sentido e a dinâmica da visão de mundo que nos é ofertada.
Eis o grande desafio da educação: construir conhecedores de diferentes paradigmas que tenham condições de oferecer múltiplas interpretações sobre qualquer campo do conhecimento. Penso que a interdisciplinaridade (MORIN, 2005) é o caminho para os construtores do novo paradigma do aprender a apreender.
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filosófico - paradigma - pós-modernidade
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Vir a ser, o caminho
A compreensão do presente e do outro, próximo, (às vezes nem tão próximo assim) passa pelas diferentes noções acerca da realidade, da percepção das situações cotidianas, normalmente geradoras de conflitos psicológicos e sociais, que temos. Creio que tudo que somos e temos como característico é decorrente das relações sociais e do uso que fazemos das experiências, como diz Michel Foucault.
A vida em grupos normatizada pelas convenções sociais acabou por complexificar instintos primitivos, já não mais possíveis de saciedade imediata, senão, a médios e longos prazos. O medo da frustração nos faz transmutar nossas vontades para desejos imediatos, listáveis, plenamente atingíveis. Fazemos isso, quem sabe, para não morrermos de depressão, para poupar o peito, para tentar fugir do finito, falível, terminal que na verdade, como diz Nietzsche... Pusemos então, nossos objetivos realizáveis em listas de compras mensais, fotografias de ritos e datas memoráveis de passagens, nossas e de nossos rebentos, fragmentamos a vida em períodos, reduzimos a fatias o tempo cronológico (até os 20 anos, depois dos 40, quando chegar à terceira idade etc.). Vamos fazendo, em ato-reflexo, o mea culpa, mesmo em situações de conflito do próprio ato de pensar, embora não tenhamos o controle, a governabilidade, a gerência sobre tudo.
Os cenários, delineamos a medida que nos movemos criando novas incertezas e, graças a Deus, a pluralidade sobre os diferentes reais (MORIN, 2003). Objetos novos se encontram com nossos olhos para deles se perderem continuamente ao sabor da mais pueril quiromancia ou, como queira, mais romântico jogo de perdas e encontros. Conflitamo-nos com os “próximos”, ora assim denominados, ora pra sempre esquecidos por que distantes. Somos por eles afetados e profundamente modificados e, ao nos afastarmos deles, delatamos novas possibilidades de “virmos a ser”. O que podemos fazer ou o que vai acontecer com nossa linguagem, comportamento e pensamento, cada situação dirá ou induzirá ao método.
A vida em grupos normatizada pelas convenções sociais acabou por complexificar instintos primitivos, já não mais possíveis de saciedade imediata, senão, a médios e longos prazos. O medo da frustração nos faz transmutar nossas vontades para desejos imediatos, listáveis, plenamente atingíveis. Fazemos isso, quem sabe, para não morrermos de depressão, para poupar o peito, para tentar fugir do finito, falível, terminal que na verdade, como diz Nietzsche... Pusemos então, nossos objetivos realizáveis em listas de compras mensais, fotografias de ritos e datas memoráveis de passagens, nossas e de nossos rebentos, fragmentamos a vida em períodos, reduzimos a fatias o tempo cronológico (até os 20 anos, depois dos 40, quando chegar à terceira idade etc.). Vamos fazendo, em ato-reflexo, o mea culpa, mesmo em situações de conflito do próprio ato de pensar, embora não tenhamos o controle, a governabilidade, a gerência sobre tudo.
Os cenários, delineamos a medida que nos movemos criando novas incertezas e, graças a Deus, a pluralidade sobre os diferentes reais (MORIN, 2003). Objetos novos se encontram com nossos olhos para deles se perderem continuamente ao sabor da mais pueril quiromancia ou, como queira, mais romântico jogo de perdas e encontros. Conflitamo-nos com os “próximos”, ora assim denominados, ora pra sempre esquecidos por que distantes. Somos por eles afetados e profundamente modificados e, ao nos afastarmos deles, delatamos novas possibilidades de “virmos a ser”. O que podemos fazer ou o que vai acontecer com nossa linguagem, comportamento e pensamento, cada situação dirá ou induzirá ao método.
terça-feira, 14 de julho de 2009
A COMPLEXIDADE DO PENSAMENTO PÓS-MODERNO
Em meados do séc. XVII o paradigma cartesiano newtoniano predispunha cada especialista em sua área ou como no clichê, “cada macaco no seu galho”. No séc. XX surge o novo paradigma: “as pessoas não são substituíveis e o todo é mais do que apenas cada uma de suas partes”, numa clara alusão à necessidade de desenvolver a visão sistêmica ou holística. Afinal, a concepção passa a ser a de que “toda ciência será a ciência humana da natureza”. Esta proposta sugere a superação do paradigma mecanicista, reducionista, que trabalha com uma visão de conhecimento fragmentado e separado em partes, para um paradigma com ênfase no todo.
A análise, estabilidade e objetividade do método simplista da ciência tradicional para explicar os fenômenos do mundo dão lugar à complexidade da contextualização, a imprevisibilidade na instabilidade dos sistemas e a intersubjetividade das interpretações com foco nas relações e conexões eco-sistêmicas desse novo paradigma emergente. Com a Física do Devir e a incontrolabilidade do caos surgem múltiplas narrativas como interpretações possíveis nos espaços consensuais da co-construção da realidade. Os princípios da separação que divisava cada uma das dificuldades em tantas parcelas quantas fossem possíveis para melhor resolvê-las e da redução dos pensamentos por ordem, dos mais fáceis aos mais difíceis, para atingir, pouco a pouco, o conhecimento mais complexo no método cartesiano, desabaram. Deixaram de ser suficientes para explicar a problemática das relações, dos ecossistemas ou da educação, por exemplo.
Edgar Morin surge com a multi-pluralidade dos princípios ocultos que governam nossa visão de mundo, que controlam a lógica de nossos discursos, comandam nossa seleção de dados significativos e nossa recusa dos não significativos, sem que tenhamos consciência disso. Para Morin (1998), “é evidente que a reforma de pensamento não visa fazer com que anulemos nossas capacidades analíticas ou separatistas, mas a de nos associarmos a um pensamento que agrega”. Qualquer que seja a denominação desta proposta paradigmática apresenta-se com características de rede, de teia, de sistema integrado, de interconexão, de inter-relacionamento, de superação da visão fragmentada do universo e da busca da reaproximação das partes para reconstituir o todo nas mais variadas áreas do conhecimento. Duas ou mais áreas se integram para uma nova produção deste. Na educação, especificamente, as disciplinas são colocadas em diálogo entre si. É uma prática possível e um caminho metodológico de diálogo entre saberes que geram diversos efeitos sobre a aplicabilidade dos conhecimentos científicos e sobre uma possível integração de saberes não-científicos. Assim, de “relógios a nuvens” surge a mente policompetente: cientistas, estudiosos, professores... que romperam as barreiras da especialidade, uma vez que “nenhum problema é especial; é apenas complexo” (MORIN, 2005).
A análise, estabilidade e objetividade do método simplista da ciência tradicional para explicar os fenômenos do mundo dão lugar à complexidade da contextualização, a imprevisibilidade na instabilidade dos sistemas e a intersubjetividade das interpretações com foco nas relações e conexões eco-sistêmicas desse novo paradigma emergente. Com a Física do Devir e a incontrolabilidade do caos surgem múltiplas narrativas como interpretações possíveis nos espaços consensuais da co-construção da realidade. Os princípios da separação que divisava cada uma das dificuldades em tantas parcelas quantas fossem possíveis para melhor resolvê-las e da redução dos pensamentos por ordem, dos mais fáceis aos mais difíceis, para atingir, pouco a pouco, o conhecimento mais complexo no método cartesiano, desabaram. Deixaram de ser suficientes para explicar a problemática das relações, dos ecossistemas ou da educação, por exemplo.
Edgar Morin surge com a multi-pluralidade dos princípios ocultos que governam nossa visão de mundo, que controlam a lógica de nossos discursos, comandam nossa seleção de dados significativos e nossa recusa dos não significativos, sem que tenhamos consciência disso. Para Morin (1998), “é evidente que a reforma de pensamento não visa fazer com que anulemos nossas capacidades analíticas ou separatistas, mas a de nos associarmos a um pensamento que agrega”. Qualquer que seja a denominação desta proposta paradigmática apresenta-se com características de rede, de teia, de sistema integrado, de interconexão, de inter-relacionamento, de superação da visão fragmentada do universo e da busca da reaproximação das partes para reconstituir o todo nas mais variadas áreas do conhecimento. Duas ou mais áreas se integram para uma nova produção deste. Na educação, especificamente, as disciplinas são colocadas em diálogo entre si. É uma prática possível e um caminho metodológico de diálogo entre saberes que geram diversos efeitos sobre a aplicabilidade dos conhecimentos científicos e sobre uma possível integração de saberes não-científicos. Assim, de “relógios a nuvens” surge a mente policompetente: cientistas, estudiosos, professores... que romperam as barreiras da especialidade, uma vez que “nenhum problema é especial; é apenas complexo” (MORIN, 2005).
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